Os desafios impostos pela pandemia e as medidas que foram adotadas pelos hospitais ao combate ao coronavírus certamente foram transformadores para o setor de saúde no Brasil.

Para falar sobre esses aprendizados e tendências fizemos um webinar com: Fernando Torelly, CEO do HCor, Paulo Vasconcellos Bastian, CEO no Hospital Alemão Oswaldo Cruz com a mediação da jornalista Karina Pachiega.

A gestão e os profissionais da saúde na crise do COVID-19

Os setores da saúde e da ciência estão tendo que lidar com muitas mudanças por estarem no núcleo dos acontecimentos recentes do COVID-19.  A pandemia mudou drasticamente o modelo organizacional dos hospitais e unidades de saúde, passando a exigir respostas extremamente urgentes e eficientes diante das novas demandas.

Ao mesmo tempo em que os profissionais da saúde que estão na linha de frente são vistos como heróis nacionais, são pessoas que ninguém quer por perto pelo medo da contaminação. Já existem registros de casos de funcionários que foram expulsos de ônibus por estarem com identificação das unidades de saúde em que trabalham.

São muitas mudanças num período curto de tempo. As empresas não são mais as mesmas de poucos meses atrás. Na esfera do desenvolvimento profissional, um novo mapa de competências se abriu para os líderes e profissionais da saúde, que inclui o errar e ajustar imediatamente como fazem as startups, além de um alto comprometimento e rigor com padrão de qualidade e segurança inegociáveis.

Exigências para uma gestão eficiente na crise

"Já vínhamos acompanhando as notícias da China e, a partir do alerta das nossas autoridades públicas, encaminhamos nosso plano de contingência”, conta Paulo Bastian, CEO do Hospital Alemão Osvaldo Cruz, em São Paulo. O plano no detalhe incluiu a “ampliação do número de leitos de UTI de 64 para 103, contratação de 350 novos colaboradores da área da saúde para incrementar o quadro fixo e também para substituir outros profissionais que, eventualmente, fossem afastados pelo COVID-19 ou outros impedimentos”, explica Bastian.

O plano de contingência para garantir uma administração eficiente também incluiu parcerias com fornecedores para assegurar a entrega de todos os EPIs e insumos necessários para abastecer o hospital. "Preparamos nossa estrutura física para acomodar os pacientes de COVID-19 longe dos demais, incluindo nosso centro de diagnóstico de imagem e o pronto atendimento. Com fluxos separados de estruturas e equipes, oferecemos mais segurança a todos os nossos pacientes”, explica Bastian.

“Nós também dividimos nosso hospital em dois. Estabelecemos um ambiente de contingência separando nossos 257 leitos, sendo que 128 foram dedicados ao atendimento de COVID-19”, conta Fernando Torelly, CEO do Hcor, hospital especializado em cardiologia, neurologia, ortopedia e oncologia, em São Paulo.

O comitê de crise de ambas instituições foi montado desde o início do ano, antes da pandemia do COVID-19 atingir o Brasil. Seus membros se reúnem diariamente para monitorar e debater as medidas adotadas diariamente no combate do coronavírus. “Dois indicadores importantes para serem monitorados diariamente são a velocidade da transmissão de novos casos e a disponibilidade de leitos de UTI. Temos visto que os estados brasileiros que entraram em colapso foi por falta de leitos de UTI para o atendimento emergencial”, explica Torelly.

Os hospitais analisaram também os desafios que seus profissionais da saúde teriam que enfrentar diante das novas condições de trabalho impostas pelo COVID-19 e atualizaram o pacote de benefícios e assistência.

Algumas das providências tomadas para suporte aos profissionais foram:

  • Hotel à disposição para quem não retornar para sua residência
  • Vaga em estacionamento para os profissionais que pudessem usar seus veículos em vez de usar o transporte público, além do reembolso do custo de gasolina
  • Troca de roupa no vestiário antes de acessar as dependências do hospital
  • Centro de atenção à saúde do colaborador e seus familiares
  • Home office para as áreas administrativas
  • Afastamento por suspeita de contágio até que haja confirmação

Todas as empresas pelo Brasil e no mundo tiveram que encontrar seus próprios planos de contingência. 89% dos profissionais ficaram satisfeitos com as medidas tomadas por suas empresas e 63% acreditavam que estavam preparados para a contingência, conforme dados da nossa pesquisa exclusiva do PageGroup “Aprendizados e tendências do COVID-19 na América Latina” , realizada com mais de 3 mil executivos da alta liderança de empresas privadas, multinacionais e familiares.

Novas competências da liderança

As lideranças tiverem que responder prontamente em um cenário desconhecido. "Imagine que um profissional trabalhava em uma organização com seus setores, rotinas e processos. Aí ele tem que enfrentar uma pandemia, a maior dos últimos 100 anos, com pouca informação. A primeira grande decisão foi sobre qual área do hospital iria atender os pacientes de COVID-19. E então você tem líderes que se prontificam para isso, gestores que estão se destacando muito nesse novo cenário enquanto outros estão tendo dificuldades por causa de um mindset processual e hierárquico”, conta Fernando Torelly.

O Hcor mudou seu modelo de gestão para uma atuação ágil com mais autonomia para os líderes. "Não temos mais meses para tomar decisões, agora são dias ou semanas no máximo. Isso muda a mentalidade especialmente de quem está em posições de liderança. Cada um está assumindo a posição de dono do hospital em sua respectiva área para assegurar que as orientações e padrões sejam efetivamente cumpridos”, explica Torelly.

NOVO MAPA DE COMPETÊNCIAS DA LIDERANÇA DO HCOR

  • Senso de dono: Modelo hierárquico dá lugar para autonomia por área
  • Administração em rede em que todos têm protagonismo, autonomia e responsabilidade
  • Transparência da informação
  • Comprometimento com a proteção, qualidade e segurança com novos protocolos
  • Pensar como uma startup para agir rápido, errar rápido e corrigir rápido

Perspectivas para 2020

Todos querem saber como serão os próximos meses, ainda que ninguém tenha esta resposta precisa. Os CEOs ponderaram sobre como a postura da sociedade vai afetar diretamente esse resultado. "Ainda vamos conviver com a pandemia durante mais tempo. A curva ainda está crescendo, chegará num platô e começará um declínio gradual que deve ir até o final deste ano. É possível que até o início de 2021 ainda tenhamos casos da doença até que apareça a vacina ou outra solução”, diz Paulo Bastian.

A opinião de Fernando Torelly não é diferente. “Ao restabelecer a economia, se as pessoas que estão em casa voltarem para as ruas e para as empresas, mas não tomarem as medidas de proteção, vai haver uma segunda onda e um novo pico ainda mais grave. Essa pergunta deve ser feita para a sociedade”, alerta.

Paulo Bastian e Fernando Torelly falaram ainda da seriedade no cumprimento das medidas de proteção fundamentais para o combate do contágio, como o uso de máscara ao sair de casa, o distanciamento social e a higienização das mãos.

“Quebrar qualquer uma dessas barreiras coloca o indivíduo, seus familiares, colegas e outras pessoas em risco. Qualquer falha é uma porta para o vírus entrar. Então, se trabalharmos juntos como sociedade, vamos viver por mais alguns meses como estamos vivendo e depois, como qualquer vírus, tenderá a diminuir. Se a sociedade fizer sua parte, nós enfrentaremos os próximos meses de um jeito melhor e venceremos mais rapidamente a pandemia”, finaliza Torelly.

Assista ao webinar completo: