Artigo - Michael Page

MICHAEL PAGE

O dinamismo do mercado e as últimas oscilações da economia demandam maior preparo e adaptabilidade do profissional do meio jurídico. Esse aspecto se intensifica ainda mais em ambiente empresarial, uma vez que o advogado é acionado e exigido em questões intrínsecas do negócio.
O profissional que busca crescimento sólido de carreira e uma visão interessante do momento de mercado atual, tem aqui uma excelente oportunidade para acompanhar um bate-papo com um dos Diretores Jurídicos de maior destaque no cenário nacional.

Fabio Salomon

Entrevista com Fabio Perrone Campos Mello

1. O que o mercado busca em um profissional do Direito atualmente?
[Pompilio, Sergio RS]

Assim como a empresa possui executivos em marketing, finanças, RH, o profissional do direito, principalmente no âmbito empresarial, deve buscar ser visto como um executivo com especialidade jurídica, antes de ser um advogado. A princípio pode não parecer, mas se trata de uma grande mudança de postura. É fundamental que esse profissional tenha consciência de que o foco da sua atividade está inserido em um contexto maior, que é o contexto da atividade da própria empresa. Portanto, foco em resultado, adaptabilidade, resiliência e visão macro-estratégica, além de uma ótima capacidade de execução, são competências inerentes a qualquer executivo de sucesso, e, por conseguinte, plenamente aplicáveis ao profissional da área jurídica.

Nesse sentido passamos por uma mudança de perfil bastante interessante pois, dizer hoje que voce é um advogado com "foco no negócio" sem resultados expressivos, corre-se o risco de cair na vala comum, pois na prática ainda é possível encontrar profissionais presos nos seus próprios jargões, complexidades da profissão e do sistema legal brasileiro, que acabam sendo utilizados como instrumento de defesa dentro das organizações, ao mesmo tempo que impede a área legal de ser vista como um parceiro estratégico de negócio já que cria uma barreira na própria comunicação de uma maneira geral. Por isso é fundamental mudar esta mentalidade e deixar de ter o tão falado foco NO cliente e passar a ter o foco DO cliente, existindo aí uma sutil mas importantíssima diferença.

2. Neste novo cenário macroeconômico mundial, como você enxerga o mercado nos próximos meses?
[Pompilio, Sergio RS]

Acredito que enfrentaremos um cenário de instabilidade por um bom tempo, em função das consequências geradas por esta crise. Até então os fundamentos ligados à economia brasileira eram bastante positivos, porém infelizmente não há como fazer esta análise de forma individualizada diante de um mundo cada vez mais globalizado. A maioria das empresas trabalha com previsões baseadas em tendências e esta crise representou uma descontinuidade nesses fundamentos. Portanto, acredito ser fundamental uma política de austeridade por parte do setor privado e público, uma vez que superada esta crise teremos tudo para atingir um novo patamar de confiança e credibilidade perante o cenário mundial, e passar a atuar como um "player" ainda mais estratégico para os mercados desenvolvidos.


3. Dentro deste contexto, há necessidade de uma mudança de foco para os profissionais do mercado jurídico?
[Pompilio, Sergio RS]

Sem dúvida. Ao deixarmos um cenário de tendências para adotarmos um cenário de descontinuidade gerada pela crise, observaremos empresas com dificuldades na obtenção de créditos e na realização de suas metas e objetivos de crescimento, impactando diretamente o seu plano de desenvolvimento e até capacidade produtiva. Por conta disso, dada a realidade em que cada um está inserido, é fundamental estar atento às relações de mercado com os mais diferentes públicos e que possam causar qualquer tipo de impacto. Nesse sentido, acredito realmente que o profissional da área legal tem em geral plena capacidade para estruturar estrategicamente a relação com fornecedores e clientes, além de suportar as relações com o governo, público interno, imprensa, sindicatos de empregados e das empresas, tendo como foco a proteção e defesa dos interesses dos seus clientes, tanto que hoje, além da área legal, também sou responsável pela área de comunicação corporativa da empresa.

Além disso, uma política de austeridade representa a necessidade de mantermos o foco na otimização da carga tributária das empresas, atualmente muito pesada e que acaba por drenar recursos que deveriam ser destinados ao setor produtivo.

4. Quais peculiaridades do mercado farmacêutico demandam especialização maior do advogado?
[Pompilio, Sergio RS]

O setor farmacêutico demanda uma diversidade de assuntos bastante interessante, que atinge desde questões envolvendo propriedade intelectual, assuntos regulatórios, contratos e tributário, até assuntos ligados a políticas e legislações internacionais envolvendo compliance. Aliás, as questões legais e éticas são muito presentes no setor, e em especial na AstraZeneca, fazendo com que o departamento jurídico esteja envolvido em praticamente todos os assuntos ligados ao negócio. Mas independentemente do setor, o certo é que o departamento jurídico precisa ser visto como um diferencial competitivo. Se não é, algo não está indo bem. Portanto, seja através da estruturação de uma operação, elaboração de um contrato ou mesmo participando de uma negociação, é fundamental agregar valor. E isto pode acontecer das mais diversas formas que irão depender da realidade de cada organização, mas sem nunca confundir com a política do "tudo pode". Como venho dizendo sempre que tenho oportunidade, risk management não significa irresponsabilidade. Nesse sentido a área legal possui um importante papel na governança corporativa, já que no contexto jurídico cabe a ela dimensionar os riscos, apresentar oportunidades e alternativas, e ao final até impedir que situações de risco sejam implementadas ainda que sob a premissa de um aparente benefício imediato para o negócio.

5. Que conselho você daria a quem inícia sua carreira na área jurídica, nos dias atuais?
[Pompilio, Sergio RS]

Invistam em vocês, estejam abertos à novos caminhos que a carreira proporciona e acreditem. Ao mesmo tempo que extremamente competitiva, a nossa profissão é muito rica em possibilidades.